16 de março de 2015

Vacina contra HIV está em testes, mas resultados são promissores

  O HIV espalhou-se por todo o globo e devastou continentes, acumulando 36 milhões de infectados e 24 milhões de mortos, garantindo para si um lugar como uma das grandes pragas da humanidade.
  Após um início conturbado, em tempo recorde, identificaram o vírus e mapearam seu ciclo de vida, o que possibilitou a criação de tratamentos que o transformaram de infecção letal em doença crônica. O número de infectados segue subindo, gerando um peso insustentável nas estruturas econômica, social e higiênica de vários países, perpetuando miséria, fome, crime, violência e sub-desenvolvimento.
  Recentemente, uma publicação na revista Nature revelou uma nova estratégia com potencial para gerar a vacina capaz de impedir a disseminação do HIV. 
  
 Por que é difícil obter uma vacina eficaz
  No mundo macroscópico, a maior parte dos eventos ocorre de modo simples, visível, direto e previsível, por exemplo: você vai diariamente a um restaurante, pede seu prato favorito, a cozinha o prepara, o garçom te serve, você come, paga e sai. 
  No mundo da biologia, a realidade nem sempre é diretamente visível e pode flutuar de modo parcialmente imprevisível. Portanto, nesta realidade, a situação acima poderia transcorrer do seguinte modo: você vai diariamente a um restaurante, mas hoje ele está no outro lado da rua e a porta da frente encolheu pela metade. Você entra por ela, mas sai no banheiro, encontra sua mesa, mas o menu está em sânscrito, pede seu prato favorito, mas a cozinha prepara outro que o garçom serve ao freguês ao lado. Sem comer, você paga o dobro do que pagou ontem, demora cinco horas para achar a saída, e sai sabendo que amanhã tudo pode estar diferente. 
  O DNA do HIV e de todos os seres vivos é uma estrutura dinâmica e interativa com muitas possibilidades a serem exercidas em resposta a estímulos internos e externos. É bem diferente de um físico que acha ruim quando a 25ª casa decimal do resultado de seu experimento não bate exatamente com sua previsão. Como isto interfere na vacina do HIV? Diretamente, por causa de sua estratégia de sobrevivência e transmissão.
  
A biologia do HIV

  Para se disseminar, os agentes infecciosos precisam continuamente infectar novos hospedeiros - mas cada hospedeiro é como um cofre cuja porta é protegida por uma fechadura. Para penetrar este cofre, cada micróbio tem sua estratégia. Alguns, como a bactéria salmonela, dispensam sutilezas e explodem a porta. Outros, como o herpes, possuem a chave. O HIV não perde um segundo pensando na chave certa - ele vai para a fechadura com dez bilhões delas, de modo que é praticamente certo que ao menos uma funcionará e isto basta.
    Aquilo que chamamos de fechadura são na verdade 3 proteínas na superfície das células brancas do sangue, chamadas de CD4, CCR5 e CXCR4. O que chamamos de chave é uma proteína do HIV chamada gp120, e o que chamamos de infecção é o processo pelo qual o HIV usa sua gp120 como gancho para se prender às CD4, CCR5 e CXCR4 da célula, conseguindo com isso o apoio necessário para penetrar a célula e nela se instalar.
   Parece óbvio que a solução para impedir a infecção é neutralizar gp120, correto? Tão correto que este foi exatamente o intento das primeiras vacinas anti-HIV, injetar o indivíduo com fragmentos purificados de gp120 no intuito de gerar anticorpos anti-gp120 que neutralizem sua capacidade de ligação às proteínas celulares.
  Os teste da vacina anti-gp120 foram realizados e... Exatamente como na metáfora do restaurante, mesmo tudo fazendo sentido, falhou. O nível de neutralização dos anticorpos anti-gp120 não era suficiente para evitar a infecção e, não bastasse isso, assim que um anticorpo se mostrava eficaz, o HIV usava sua enorme capacidade de mutação para trocar aquela versão de gp120 por outra e escapar.
  Esgotada esta possibilidade de ataque frontal, os cientistas saíram em busca de novas estratégias e um bom local para começar foi analisar como pessoas naturalmente imunes à infecção pelo HIV conseguem derrotá-lo. Do estudo deste grupo aprendemos duas coisas: a primeira é que sem CCR5 e/ou CXCR4 na superfície da célula a infecção pelo HIV não progride, e a segunda foi que a eficácia neutralizadora dos anticorpos anti-gp120 identificados em alguns destes indivíduos era exponencialmente superior à media encontrada na população infectada e/ou vacinada. Com isso, surgiu uma nova estratégia que consistia na criação de uma vacina que gerasse não um anticorpo qualquer, mas um destes superanticorpos. 
  Essa ideia falhou não porque o superanticorpo anti-gp120 era ruim, mas primeiro porque a vacina para gerar este superanticorpo é muito mais complexa.
  Um grupo de cientistas olhou para o que havíamos feito e pensou: se tudo o que testamos funciona parcialmente, por que não fazer uma vacina que combine todas estas ações? 
  Os pesquisadores deste grupo foram progressivamente identificando e desarmando os problemas e ajustando a vacina de modo que no teste em animais ela gerou proteção eficaz, segura e duradoura contra o HIV. 
  E verdade que o fato de funcionar em animais não significa que funcionará em humanos, mas pode. Ainda assim, é impossível negar que mais do que nunca, há uma forte esperança de que em breve despacharemos o HIV no mesmo trajeto no qual mandamos a varíola, a pólio, a caxumba, a catapora, o HPV, o sarampo, entre outros.
←  Anterior Proxima  → Página inicial